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Gia Carneiro Chaves
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Uma lareira crepitante de rubras labaredas é um dos mais fascinantes pontos de
concentração. Figuras fantasmagóricas brotam da lenha incandescente que sobem e descem,
vacilam e crescem numa dança plena de mistério e beleza! O vento deambuleia lá fora,
ruidoso, entrando sem cerimónia pelas telhas do meu telhado. Parece gargalhar, gargalhar
em rajadas que me acompanham.
Sinto a
noite como a mais fiel companheira, com ela e ao sabor do vento, mergulho em mim,
conjecturo, questiono, procurando soluções no labiríntico emaranhado da mente.
O meu "Eu" na mais total plenitude está com
todos os seres que na luta titânica pelo existir se vão esquecendo de Viver! Na
realidade, foi o próprio homem através dos séculos, desde as mais remotas eras que
lenta e gradualmente deu origem a estruturas e infra-estruturas que o tornaram cada vez
mais escravo, vítima e prisioneiro, primeiro, dele próprio, e
depois de toda a
sociedade circundante. O homem (Ser, já limitado) na sua ambição desmedida de
conquistas infinitas vai-se lançando no caos de uma luta competitiva, angustiante, numa
eterna dependência e interdependência psíquica. Depois
estrebucha tentando
libertar-se de amarras e grilhões que ele próprio criou. A ambição humana de
"ter" esquecido de Ser, não o deixa transcender as reais limitações da
matéria.
A arte de Viver na plenitude da Vida é uma meta! Ensinar a
agarrar a "beleza" de cada coisa e de cada situação, aprender a sentirmo-nos
"prisioneiros voluntários" é uma filosofia de Vida que torna a caminhada bem
mais suave. Afinal, a esmagadora maioria dos viventes humanos que deambulam no espaço
planetário, no âmago do seu Ser, uivam de dor, rouquejam gritos, e num atropelo
inconsciente tentam euforizar a Vida de maneira ingénua e que ignorantemente consideram
certa na hierarquia de valores convencionados, estipulados. Saber criar Vida é a arte
mais sublime! Nós, os que julgamos saber, os que adquirimos conhecimentos e abarrotamos o
intelecto com a suprema finalidade de entender, de entender
pensamos convencidos
que a razão é algo divino que deve dominar a sede das emoções. Só nos ensinaram a
entender, não a olhar, a sentir, a vibrar com as sensações. Porque não ensinar a Viver
de dentro para fora?
Porque
não ensinar a existir em sintonia com o Ser, que origina um Estar pleno em cada Aqui e
Agora? Ensinar a chegar a esta dimensão é imprescindível ajudar cada um a aprender a
atravessar os seus desertos, a escalar montanhas abruptas, a trepar agrestes rochedos de
íngremes promontórios, e a saborear extensas e verdejantes planícies! E depois
ensinar a encontrar a realidade de um paraíso interior e "aí" até a
necessária sobrevivência no oceano existencial, a que as limitadas condições da
matéria obrigam, pode vivenciar-se em sintonia com a essência do Ser!
A maior parte das destabilizações psíquicas são de
nível emocional e sentimental, criadoras de bloqueios e complexos que perturbam
angustiantemente a Vida do ser humano! A Vida é saborear e desfrutar o que é realmente o
eco do nosso sentir.
É observar a magnificiência duma Natureza sempre pujante que compõe infinitos espaços
do planeta! É saborear todas as manifestações de afecto, cultivá-las com maior carinho
e ternura, pois são imprescindíveis como nutrientes fundamentais da alma humana. Saber
cultivar uma mente positiva, abrir as janelas da alma de dentro para fora, e numa entrega
ao mundo, numa dádiva sem cobrança é uma das mais sábias artes de viver.
Gia
Carneiro Chaves
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