sol.JPG (17680 bytes)Uma Vida que encontrou o seu real caminho
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Vou mudar de temas científicos. Algo de vivências sublimes da minha Vida fazem parte do que eu ensino!

 

 

Estou neste momento num café taberna no dia 6/06/86 a ensinar, como diariamente faço desde o entardecer e pela noite, um poeta popular que descobri e cujos dois livros lançados foram um sucesso. Era paraplégico desde criança. Diariamente desde o entardecer ia para lá depois de o descobrir através da grafologia (5 anos muito trabalhosos) e lhe disse “O Senhor é um poeta!”. Ensinei-o somente na ortografia e na pontuação. Tudo o resto saiu dele… e já tinha muita poesia feita, desde há longos anos, em pedaços de papel amarelado onde ficaram gravados retalhos da sua alma! Era através da poesia e da sua arte que o seu “EU” intrínseco se libertava…       

 

Algo sobre a bibliografia dele:

A caminho da lagoa de Santo André no cruzamento para Brescos, viveu António Arsénio. Anos consecutivos falei-lhe… via-o na sua cadeira de rodas, ora mais taciturno e melancólico, ora mais sorridente, falava-lhe sempre como alguém… que conhecia. Despertava-me a atenção o seu olhar que reflectia uma inteligência viva, um olhar penetrante e simultaneamente distante… mas não me detinha. Um dia…quase de súbito descobri que aquele homem solitário na sua cadeira de rodas tinha alma de poeta (através de uma factura que ela passava a um fornecedor), alma de artista de uma rara sensibilidade e de um arguto poder de observação. Foi uma descoberta sensacional que me impressionou profundamente! Aquele homem vivia numa solidão… acompanhada, sonhava e sofria! A minha descoberta levou-o a mostrar-me as suas produções poéticas que ele guardava na gaveta, como algo… que só a ele poderia interessar! Era o transvazar da sua alma despoluída, como despoluída é toda a natureza que o rodeava. Nasceu a 19 de Junho de 1929 em Melides e morreu a 11 de Abril de 2006. Paralisou aos 3 anos de idade e durante muitos e muitos anos deslocava-se rastejando. Uma ânsia de saber, de aprender era uma constante na sua mente e sozinho tentava desvendar os mistérios dos símbolos fonéticos; toda a família ia trabalhar, ele ficava entregue a si próprio e aos vizinhos que o recolhiam. Só aos 14 anos conseguiu aprender com alguém: uma rapariga que tinha somente a 2ª classe. Um dia, num mês de Março montado numa carroça construída por ele, veio de Melides a Brescos pedir ao Professor Primário da época para o preparar para a 3ª classe. Nesse mesmo ano (1951) conseguiu não só a 3ª classe como a 4ª e ainda mais tarde em Agosto a admissão ao liceu, esta no liceu nacional de Beja. E assim surgiu muito mais tarde com a escrita que aprendeu o seu primeiro livro “CAMINHOS”. Depois dos exames, nesse mesmo ano, concorreu aos jogos florais da zona sul, com figuras esculpidas em madeira alegóricas ao cultivo do arroz, e uma varina de canastra à cabeça; ganhou um diploma de Menção Honrosa. Muito breve história de um homem que continuou “existindo” num mundo bem desfasado da essência do “SER”. Este continuou sonhando, olhando os poentes rubros do Sol que se escoam através dos emaranhados das ramadas dos extensos pinhais.

Aproveito para vos enviar um poema dele, simplesmente dele…

 

 

Eu vim do nada e sei que nada sou,

Do nada fui passando a sofredor!

Desde os 3 anos que transporto a dor

Rastejando nos caminhos onde vou!...

 

Quanto mais sofro, menos a ver dou,

Trocando o sofrimento por Amor,

Tentando fazer feliz tudo em redor,

Para que mais ninguém sofra onde eu estou!...

 

Em vez de me tratarem com lamentos,

Tentem como eu, esquecer os sofrimentos,

Que por vezes brotam dentro de nós!...

 

Peço que não me falte que fazer,

Com o meu suor ganhar para comer!

E SEREI HOMEM VÁLIDO COMO VÓS.

 

 

 

 

Sem pernas nunca foi um inválido! Construiu a sua vida, o seu negócio lenta e gradualmente o que permitiu dar à família que mais tarde constituiu um lar onde nunca faltou o necessário para a mulher, que o ajudou corajosa e heroicamente, e seus filhos. Tudo o que existe para o bem-estar da sua família proveio da sua brilhante e criativa inteligência e da sua tenacidade sem nunca desistir, não esquecendo essa mulher grandiosa – Maria Luísa – que desde o casamento foi para ele uma companheira incomparável.

 

Outro poema que mostra os sentimentos e a dignidade de um ser humano que viveu entregue a si, e aos vizinhos desde bem criança, durante dias quando os pais e irmãos iam trabalhar, sem orientação nem formação, somente a que a sua alma lhe ditou.

 

 

A minha Vida

 

Numa vivenda isolada

De boninas matizada,

Giestas e rosmaninho!

Vivi junto a 10 irmãos,

A meus pais demos as mãos

Unidos no mesmo ninho.

 

Aos 3 anos, que agonia!

Tive uma paralisia

Que me deixou muito mal!

Eu nunca mais dei um passo,

Um irmão só com um braço

E uma doente mental!...

 

Meus paizinhos adorados

Viviam preocupados

Com tanta infelicidade…

Ao ouvi-los cochichar

Prometi nunca deitar

Minha mão à caridade…

 

 

 

Como este maravilhoso exemplo ainda existem no espaço planetário “outros” que com deficiências físicas venceram honestamente, trabalhando sem tréguas e deixando a esta humanidade caótica um verdadeiro exemplo de VIDA, de lutadores, e assim deixaram ao mundo a recordação do que é a Coragem humana, tenacidade de vencer a sua incapacidade e lutar pelo BEM do seu mundo circundante.

E vocês, válidas criaturas sem deficiências físicas? Na sua maioria o que construíram? Impérios do “Ter e do Poder”. Outros ficaram à margem da existência acomodados, falhados, medrosos, problemáticos, sem saberem QUEM são. Alguns, grandes artistas preguiçosamente não desenvolveram os valores artísticos, não permitiram que “outros” pudessem saborear o bálsamo aquietante da sua Arte. Chegaram ao fim… sem iniciar um principio… Muitos valores humanos ficaram ignorados e nada ofereceram a quem deles necessitava num intercâmbio de dádivas, amarrados às limitações que criaram e às rotinas amarfanhadoras e bloqueadoras de vida, “perdidos”… nunca se souberam encontrar.

E Vós, aqueles que se encontraram, válidos e potentes enriqueceram com o seu exemplo de vida, heróis a cada momento num sentimento profundo de “Ser”, tomando a cada momento consciência do que poderiam dar e num altruísmo comovente subiram a montanha existencial dando a cada momento o que podiam e o que sentiam. Há muitos, que souberam tomar conta de si, conta de outros, ajudá-los a ser independentes, a encontrar os seus próprios valores. Há tantos, escritores, poetas e cientistas que legaram à humanidade a Luz do conhecimento para que todos os que quisessem pudessem aprender, Saber, Saber… Singraram e ainda muitos singram sem se deterem perante os obstáculos, sendo o maior obstáculo a humanidade caótica com que se depararam, e com que se deparam, mas venceram e continuam a vencer os que querem. Muitos SERES proporcionaram e deixaram ao longo dos tempos à humanidade conhecimentos de Arte de Viver e vencer obstáculos!

 

Para a próxima página irei continuar “sobre as coisas da Vida”.

Gia Carneiro Chaves

 

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