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Distúrbios neuróticos

 

 

NEUROSE

 

  Temos falado muito em problemas de ordem psíquica e neurológica, mas nunca nos debruçámos mais profundamente sobre as neuroses. Eu digo profundamente embora tenha que ser tratado muito resumidamente em virtude de ser um assunto inacabável. Segundo o Professor Albino Aresi “Neurose é a frustração de uma necessidade fundamental psicossomática, super-valorizando as tendências do id, ou seja as pulsões do corpo, e minimizando as exigências do espírito, da alma, pela violação da hierarquia de valores”. Em consequência, nos sindromas nosológicos (oriundos da nosologia, que é a parte da medicina que trata da classificação das doenças de toda sintomatologia psiconeurótica) sempre haverá directa ou indirectamente a sufocação do super-ego pela super-valorização das tendências fundamentais biológicas do id como poderá haver frustrações patológicas das próprias tendências desse id como o misticismo doentio, como acontece no Estoicismo dos faquires que fazem a greve da fome, sendo estoicismo uma corrente filosófica datada do séc. XIV que pretendia tornar o Homem insensível aos males físicos e morais, princípios rígidos, austeridade, tendência para a indiferença dos bens da terra; do Niquilismo Brahamanes, em que procuram a auto-mutilação ou o auto-mutismo numa auto-punição em que os que se sentem culpados procuram a auto-destruição. Implicitamente a neurose sempre contem uma inversão de valores, e segundo Rudolf Allers, a neurose origina-se da exaltação da tensão que existe no Homem entre a vontade de poder e a impossibilidade de poder, o que origina como consequência uma forte revolta contra a limitação, a sua finitude, a impotência naturais, revolta essa transformada em doença ou anormalidades pelas somatizações ao comportamento perverso.

  Ludwig Knoll considera a neurose sendo também proveniente de perturbações psíquicas não apresentando muitas vezes qualquer causa física, é funcional, mas não orgânica embora origine frequentemente consequências orgânicas que são as doenças psicossomáticas que afectam tanto o psiquismo como o corpo. Segundo Ludwig Knoll que consegue resumir teorias Freudianas, Junguianas, Teillaristas, etc., “as neuroses resultam de conflitos que não puderam ser resolvidos entre desejos pulsionais e obstáculos ou inibições que se opuseram à sua realização”. As neuroses baseiam-se essencialmente num conflito íntimo, num conflito intra-psíquico. Na formação educativa da criança, esta cresce em ambientes cujas regras convencionais ou convenções dogmatizadas que conduzem a interdições constrangedoras, e originam medos como do que se diz, do que se pode dizer e afectar, de desagradar, de falhar, das críticas… que são interiorizadas e recalcadas com grande sofrimento por vezes e passam ao longo do tempo para os níveis do inconsciente.

  Os conflitos que levam à neurose são originados desde as infâncias, pois os adultos não lhes podem fazer compreender as regras preconceituais que lhes impõem. As neuroses infantis são frequentemente ignoradas pelos adultos que as interpretam como comportamentos naturais da infância ou são rotulados por vários defeitos éticos. Mas a verdade é que deixam sempre marcas donde poderão resultar mais tarde algumas das variadíssimas neuroses do adulto. Muitas vezes por não terem sido resolvidos problemas infantis graves e apenas recalcados, os conflitos mantêm-se inalterados no inconsciente, mesmo que surgissem mudanças vivenciais estes conflitos infantis ficam como uma fixação na infância e pode surgir o “infantilismo” e outros tipos de doenças neuróticas. O adulto neurótico, sem o saber, comporta-se com os que lhe estão mais perto, especialmente os familiares, como se comportava muitas vezes na infância. A pior situação neurótica de um lar está contida na “família ansiosa”. A ansiedade dos pais pode manifestar-se pelo comportamento super-protector, um dos principais factores para a criação de estados neuróticos. As crianças assimilam essa ansiedade que se avoluma. O excessivo cuidado dos pais cria insegurança nos filhos, provocando muitas vezes revolta e até agressividade. A ansiedade dos pais pode chocar-se com a rebelião da criança que considera a super-protecção como uma restrição à sua personalidade. Muitas vezes essa atitude super-solícita dos pais, interpretada pelas crianças como punitiva e crítica pode agravar a revolta da criança, a qual, por sua vez, aumenta a ansiedade e desaprovação dos pais. Nunca esquecer, a criança é um verdadeiro radar! Capta tudo o que se passa entre os pais e dos que lhe estão mais próximos. Normalmente é a mãe, quem mais está com a criança. A influência de uma mãe neurótica sobre um filho é notável, dadas as características afectivas-emocionais de que se reveste a relação, resultando frequentemente conflitos intra-psíquicos gravíssimos, problemas graves de se resolver. Frequentemente é necessário tratar primeiro os pais, pois pais nervosos, inseguros, que vêem perigo em tudo geram filhos fóbicos, tristes, e são causadores da grande doença que é a perda de mecanismos de defesa, ou seja a “perda de defesa vital”.

  Como já afirmei os conflitos geram-se a partir da infância obrigando a criança a comportamentos que ela não entende, especialmente preconceitos tradicionalistas e convencionalistas, que variam consoante civilizações e até de família para família, que são verdadeiras agressões à natureza da criança. A transgressão dessa hierarquia de valores estabelecidos é inevitavelmente sentida como um angustiante complexo de culpa; essa transgressão gera na criança e mais tarde no adolescente uma afronta ao “Eu” intrínseco levando-a a uma baixa auto-estima. Este dilema psíquico provoca no Homem as neuroses noógenas que vêem desde a infância e provocam na grande maioria da humanidade conflitos intra-psíquicos numa luta entre os valores do espírito, da ética e as pulsões da matéria. Estes conflitos conduzem ao que Freud e Addler consideram “perversão”, situação de desorientação mental e física, e nome este que diz quase exclusivamente ao comportamento sexual e às relações de afectividade originando uma infelicidade no Ser que os vive, problemas psicosexuais muitas vezes escondidos.

  Muito resumidamente, pois mais tarde desenvolverei com muito mais pormenor, a PERVERSÃO que Jung e outros psicanalistas consideram como um desvio que diz respeito quase exclusivamente ao comportamento sexual e às relações de afectividade seguem caminhos fora da normalidade. Por exemplo, os neuróticos psicosexuais podem ter práticas de perversão variadas, como a sexualidade inibida e que provoca fixações, ou jovens que estão privados de contactos sexuais até muito tarde que torna o onanismo inevitável, e tudo é uma maneira de satisfazer sexualmente o que é interdito ou inacessível. Noutra página falarei mais especificamente sobre neuroses psicosexuais.

  Gostaria de deixar nesta página algo sobre traços fundamentais do neurótico em qualquer das manifestações de neurose. Normalmente o neurótico está muito sujeito a doenças tanto físicas como emocionais. No entanto, investigações profundas, e estudando os “porquês” concluíram que a susceptibilidade à doença tem frequentemente origens psicológicas e o enfraquecimento das defesas biológicas que pode originar com maior risco a doença física em situação de sofrimento psicológico. Também investigadores científicos encontraram provas que os indivíduos possuidores de certos traços neuróticos da personalidade, como a ansiedade crónica, o pessimismo, a hostilidade, têm fortes probabilidades de adoecer cerca dos 40 anos, surgindo frequentemente numerosas psicossomáticas. Outros comportamentos neuróticos que vulgarmente acompanham a humanidade, sem que se lhe dê importância, é a repetição da verificação se o bico de gás está apagado, voltar a verificar várias vezes se as luzes não estão acesas, se as coisas ficaram devidamente tratadas que nada possa originar perigo, e até depois da porta cerrada e já a caminho para ir descansar voltar atrás para verificar novamente se a porta ficou bem fechada. E por vezes as pessoas ainda permanecem inseguras e quando continuamente preocupadas, aflitas por este género de ansiedades e dúvidas podem originar um distúrbio de personalidade chamado Neurose Obsessiva-Compulsiva. Outro exemplo é alguém afligido com opressivo receio de contágio, de infecções, lava as mãos dezenas de vezes por dia. Uma compulsão de asseio exagerado de qualquer tipo provou-se que não tem verdadeiramente relação com o asseio físico e aspira antes restaurar valores desconhecidos de sentimentos dignos, de ética que inconscientemente parecem ameaçados. Outra manifestação neurótica é quando alguém não consegue começar a trabalhar sem ter arrumado na sua secretária todos os objectos na ordem precisa e determinada habitual, pois se assim não estiver o indivíduo não tem o sentimento de segurança. Os neuróticos pela sua imaturidade emocional manifestam-se em geral egoístas e egocentristas, orgulhosos (máscara que por vezes encobre muitos complexos), ambiciosos e ávidos de poder e domínio. As principais manifestações do neurótico além destas e outras são a susceptibilidade, melindre exagerado, uma insegurança angustiante e o escrúpulo, que não é mais que um contínuo remorso das falhas passadas. Comenta frequentemente as vivências e os erros do passado, preocupando-se exageradamente com ele, justificando culpas sempre com racionalizações. A psicologia profunda define o escrúpulo como um desvio de culpabilidade precisando por vezes de se punir e acusa-se de tudo, num processo inconsciente. Nunca esquecer que o medo é indubitavelmente o elemento essencial para qualquer neurose. Tornam-se por vezes supersticiosos pela sua insegurança. O neurótico para sustentar a sua personalidade desajustada e insegura cria mentalmente por vezes como realidade situações imaginárias em que o egocentrismo é uma característica fundamental do seu carácter. Ele vive num sofrimento dolorosamente real, por vezes num verdadeiro martírio. Não sabe nem consegue encontrar capacidades de se libertar dos penosos sintomas orgânicos e de viver num mundo psiquicamente angustiante. Vive iludido, tendo como um dos traços fundamentais a falsidade em que assenta as suas vivências, refugiando-se em continuas máscaras de racionalizações permanentes e perdendo por vezes a sua identidade.

  Também se pode descrever como neurótica uma sociedade no seu conjunto. Há toda uma série de conflitos entre os indivíduos que não são resultado de decisões conscientes, que são recalcados, deslocados, desajustados de tal modo que não conseguem descortinar as motivações, as causas das situações. Estes indivíduos geram conflitos entre humanos com quem não se conseguem adaptar. Continuarei mais tarde com vários tipos de neurose e perversões.

 

Gia Carneiro Chaves

 

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