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Euro: um sucesso garantido? Antes da entrada em vigor do Euro tinha a sensação que os preços iriam aumentar. Mas os nossos políticos garantiam a pés juntos que tal não iria nem poderia acontecer. Com um mês de experiência ja se vê: o que custava 100$00 custa 5 cêntimos, o que custava 200$00 custa agora 1 €, e por aí adiante. Ficam sempre mais uns troquitos no café, no tabaco, no táxi, nos parquímetros e nos bens alimentares. Estava bom de ver, bastava fazer contas e imaginar o mercado a funcionar no dia a dia. Mas o nosso governo sempre assegurou que não iria haver inflação. Nós ainda não temos dados estatísticos que o possam revelar mas a Alemanha já fez contas e chegou à conclusão que os preços aumentaram 2,1% em Janeiro devido à entrada em circulação do Euro. Se isto não é inflação... |
Maria Miguel Ferreira
O euro é inflacionista?
A discussão do euro faz-me lembrar aquela estória da nova economia, que primerio era nova e depois já nem estatuto de economia tinha. Andaram gurus e especialistas a discutir, durante dois anos, se realmente existia uma nova economia e quais os novos modelos de negócios para fazer dinheiro. Vieram depois os arautos da sua morte, anunciar que a tão proclamada nova economia nunca tinha existido, que todas as falências de empresas tecnológicas só demosntravam que nada mudou e tudo foi uma ilusão. No fim, se formos ver, a economia global conheceu aumentos de produtividade apenas comparáveis ao crescimento económico resultante da revolução industrial e, afinal, andaram todos a discutir se a economia crescia a 2% ou 3%, ou seja, se o crescimento duplicava ou triplicava, devido ao aparecimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). O que interessa, afinal, é se a economia global cresce e se a repartição da riqueza global se torna mais eficiente e justa. Mas já estou aqui a fugir da Europa e do seu euro... As autoridades políticas e monetárias declaram que o euro não é inflaccionsista. O Eurostat, instituto europeu de estatística, registou uma inflacção de 2,5% na Zona Euro em Janeiro, contra 2,1% registados em Dezembro de 2001, apontando um crescimento de 0,27% dos preços entre estes dois meses e uma passagem do índice de preços de 109,7 para 110. Irrisório. Se é certo que a Alemanha conheceu uma inflacção superior (0,9%), também a podemos explicar pela instabilidade económica do país, recentemente sublinhada pelo "cartão amarelo" que a Comissão Europeia levantou ao seu défice orçamental (as previsões de 1,5% resultaram em 2,6%), tal como fez relativamente a Portugal. Mas já em Portugal, segundo a Direcção-Geral de Concorrência e Preços (DGCC), a taxa de inflacção homóloga e média anual relativa ao mês de Janeiro recuaram, conforme noticiou o jornal Público no dia 5 de Fevereiro. Ao contrário do que os consumidores previam, os arredondamentos feitos pelo pequeno comércio tiveram um impacto limitado no aumento generalizado dos preços, cujo crescimento, mesmo assim, continua acima da média da Zona Euro. Ainda segundo a DGCC, os preços que mais subiram foram em bens alimentares, bebidas e restauração (0,2%). Os saldos e a descida do preço dos combustíveis poderão ter contribuído para o equilíbrio geral da inflacção. Também na França a subida da inflacção ficou, em Janeiro nos 0,1% - nada alarmante. A vizinha Espanha estimou a sua inflacção no mês de Janeiro à volta dos 0,5%. Tendo em conta que Janeiro é um mês de tradicional aumento de peços na Zona Euro, devido ao aumento dos impostos sobre os combustíveis (este ano, em Portugal, foi ao contrário), os prémios dos seguros na Alemanha, bem como os cigarros na França - duas economias fortes da União - não se pode dizer que a inflacção na Zona Euro tenha crescido significativamente devido à introdução da moeda única. Por aqui, acho que não podemos condenar o euro. Podemos, sim, discutir as previsões centrais de que iria ser uma moeda forte, a longo prazo mais forte que o dólar, o que não se está a verificar. Segundo Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal, a nossa moeda está depreciada face ao dólar e terá ainda espaço para subir, mas o que é certo é que em Janeiro esteve acima dos 0,9 dólares e desde aí tem vindo a descer. Vamos esperar para ver (não há muito mais que possamos fazer, para além de participarmos em encontros como o de Porto Alegre - Brasil, para discutir estratégias anti-globalização). O que também podemos discutir, embora já vamos tarde, é a política monetária que opta pela integração. Um moeda única significa, para cada país, não poder utilizar instrumentos de política monetária para arrumar a sua casa, tais como fazer variar a quantidade de massa monetária em circulação e, assim, controlar a inflacção e, indirectamente, as taxas de desemprego. Abdicar dessas ferramentas é perder poder orçamental e ficar dependente de "consensos" globais. Por outro lado, o que teríamos a ganhar em ficar de fora do projecto europeu, já que as nossas estratégias de ligação económica à África e à América do Sul são infantis? Estar "no euro" tem, pelo menos, a vantagem de podermos viajar sem nos preocuparmos com câmbios. Se não contarmos com a Inglaterra (que curiosamente era o maior centro de negócios e de encontros profissionais da Europa), onde para ir, ainda temos que trocar libras. Para quem "time is money", a arrogância pode revelar-se má política... Maria Miguel Ferreira |
Orlando Castro
O euro do nosso (des)contentamento
É verdade que com a entrada do euro a vida dos portugueses (pelo menos esta) ficou mais cara. Os arredondamentos, acertos ou câmbios, sobretudo nas pequenas (e muitas pequenas juntas...) compras, fazem-se para cima e o zé povinho é que fica a arder, apesar de ter a lei do seu lado. Grão a grão vão os comerciantes enchendo o cofre. Grão a grão vão os portugueses notando que estão a ir-lhe ao bolso. Mas, benevolentes por tradição, os portugueses aceitam tudo isso em nome de uma boa causa... a causa que os faz sentir mais europeus, mais iguais entre os que estão na lista de convocados para o campeonato da Europa. Se ficam no banco, pouco interessa. Têm a mesma moeda e, por isso, vamos cantando e rindo. Permitam-me, contudo, que «dê uma de entendido» (o que não é, diga-se, o caso) e que vos fale de outras preocupações. Sobretudo de três: do défice orçamental, do rendimento de todos nós e do investimento. O défice orçamental de Portugal aproximou-se em 2001 do limite inferior (3 por cento) permitido pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento, que tem como objectivo de médio prazo (2004) alcançar orçamentos públicos perto do equilíbrio ou excedentários. Portugal, que tinha previsto em 2002 baixar o seu défice para 1,1 por cento do PIB (Produto Interno Bruto), acabou por fechar as contas públicas em 2,2 por cento, o dobro do que se esperava inicialmente. O objectivo inicial de uma nova redução, para 0,7 por cento em 2003, foi recentemente substituído por uma previsão de 1,8 por cento. Em termos de rendimento, registe-se (relembre-se, corrobore-se, alerte-se) que Portugal situa-se num nível médio baixo, situando-se em 24º lugar entre 43 países considerados num estudo da OCDE, que compara os PIB por habitante medidos em Paridade de Poder de Compra (PPC). Portugal está acompanhado no grupo de países de rendimento médio baixo por Chipre, República Checa, Grécia, Hungria, Coreia do Sul, Israel, Malta, Nova Zelândia, República Eslovaca, Eslovénia e Espanha, segundo o estudo da OCDE, que se refere a dados de 1999... uma altura em que as vacas (ainda) não estavam tão magras. Os países de elevado rendimento entre os 43 considerados são Luxemburgo, EUA, Noruega, Suíça, Dinamarca e Islândia, por esta ordem, seguindo-se na classe de nível de vida médio alto a Holanda, Canadá, Irlanda, Áustria, Japão, Austrália, Bélgica, Alemanha, Itália, Suécia, Finlândia, Reino Unido e França. No escalão de nível de vida baixo surgem, por ordem ascendente Ucrânia, Roménia, Turquia, Rússia, Macedónia, Bulgária, Letónia, Lituânia, Croácia, México, Estónia, Polónia e República Eslovaca, esta última muito próxima do nível médio baixo. Considerando apenas os 15 países da União Europeia, Portugal surge em penúltimo lugar (se o Governo quiser sempre se poderá dizer em segundo lugar... a contar do fim), apenas acima da Grécia, com um nível de vida mais de duas vezes e meia inferior ao do Luxemburgo, que encabeça a lista da UE. Quanto à terceira preocupação (e convém não as esgotar todas porque há mais Cafés Lusos para servir) , registo que o investimento empresarial em Portugal terá caído 1 por cento no ano passado e deverá agravar a tendência de quebra em 2002, prevendo-se um recuo de 3,5 por cento, segundo o Inquérito ao Investimento do Instituto Nacional de Estatística (INE). Em 2000, ainda 85,3 por cento das empresas efectuaram investimentos mas essa percentagem reduziu-se para 77,6 por cento no ano passado. Para o ano em curso, só menos de dois terços das empresas (65,1 por cento) espera investir. Em 2001, o investimento das empresas em construção aumentou 16,7 por cento mas em material de transporte caiu 19,6 por cento e em máquinas e equipamentos baixou 3,2 por cento. Para 2002 os empresários esperam investir menos naqueles três objectivos: construção (menos 3 por cento), máquinas e equipamentos (menos 4,7 por cento) e material de transporte (menos 9,9 por cento), embora com uma evolução menos negativa neste último. Orlando Castro |
| Na próxima semana: Quo vadis Portugal? |
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